domingo, 30 de janeiro de 2011

Amor e amizade

Postado por Cláudia Figueiredo às 15:05
Por Paulo Ghiraldelli Jr., do livro  "Filosofia, amores e companhia"

“Filosofia é poesia é o que dizia a minha vó. Antes mal acompanhada do que só. Você precisa de um homem pra chamar de seu. Mesmo que esse homem seja eu.” Essa lírica de Erasmo Carlos diz muito do amor. Ela aponta para o que está implícito no amor erótico, a posse – ainda que relativamente só verbal – e o ciúme.

Não me refiro à posse e ao ciúme que interferem na individualidade e identidade do parceiro, descaracterizando-as a ponto de destruir o amor à medida que torna o amado antes um boneco que uma pessoa. O que digo tem como pressuposto, ante de tudo, a idéia básica de que o amor não é apenas um sentimento, ele é um sentimento e uma relação. Portanto, não se pode dizer, no amor, que ele ocorre somente quando o amante deseja o bem estar do amado, a sua felicidade, mas é essencial que o amante gaste tempo, deslocamento espacial e ações para que isso ocorra. O amor como relação implica em um forte interesse do amante pelo amado, que o faz despender cuidados para com este. As expressões “meu homem” ou “minha mulher” surgem nesse contexto. E neste contexto são perfeitamente legítimas.

Uma moça se irrita quando ela não é “assumida” pelo seu namorado. Em outras palavras, isso ocorre quando ele não demonstra claramente que possui ciúmes dela. Nem sempre as disputas entre homens por determinadas mulheres e, no mundo contemporâneo, vice versa, são frutos de comportamentos que poderiam atrair sociólogos para chamá-los de “machistas” e psicólogos para catalogá-los de “possessivos”. Podem ser simplesmente uma resposta à idéia de que o interesse precisa ser manifestado como um interesse que não seja o da amizade, mas o do amor-eros. O filósofo americano Robert Nozick tem uma fórmula célebre sobre o amor romântico ou amor-eros. O amor é a busca que um eu e um tu, sem perder a individualidade, no sentido de formar uma nova entidade no mundo, um nós. A amizade não forma um “nós” no sentido que a união dos amantes forma, tanto do ponto de vista da linguagem quanto, para alguns filósofos, do ponto de vista ontológico.

Como se pode ver, a questão do ciúme está imbricada com a diferenciação entre amor e amizade. Essa questão, por sua vez, remete a uma derivada, que é a compatibilidade ou não entre amizade e amor-eros.

A filósofa da universidade de Oklahoma, Neera Badhwar, ao falar sobre amizade e amor (1), lembra a célebre fórmula de C. S. Lewis, de que a amizade absorve pessoas ombreadas num interesse comum enquanto que o amor absorve pessoas uma nas outras, numa relação de olhos nos olhos. Mas o amor, nem por isso, diz Lewis, é incompatível com uma grande amizade entre os amantes. Aliás, Platão, no Fedro, fez da amizade um contínuo do amor, motivados ambos os parceiros pela busca do Belo e energizados pela conversa filosófica. Badhwar começa por essa via para, diferentemente de vários outros filósofos, defender que não há incompatibilidade entre amor romântico e amizade. Muito menos ela quer ceder à tese de Kant, que põe a amizade como moralmente superior ao amor-eros, uma vez que este sempre envolve algum sentimento de posse.

Badwar diz que tanto a amizade quanto o amor são relações que demandam forte interesse entre os envolvidos, um querendo o bem estar do outro. Além disso, tanto quanto o amor, a amizade envolve o prazer, que é obtido, é claro, pela companhia do outro. Nem mesmo o compartilhamento da intimidade diferencia o amor da amizade, pois é de amigos compartilharem elementos psicológicos que são completos segredos para outros, tanto quanto isso é uma característica fundamental do amor. Todavia, lembrando o filósofo inglês Roger Scruton, ela acentua que o elemento fantasia joga um pequeno papel na amizade, mas um papel essencial no amor erótico ou amor romântico.

Essa diferença, a da fantasia e, é claro, a do envolvimento sexual, não é o que Neera Badhwar escolhe para diferenciar amor de amizade. Pois a sua diferenciação visa, também, responder à questão sobre a incompatibilidade ou não entre amor e amizade. Nisso, ela tem de enfrentar a questão do ciúme, com a qual começamos este texto.

O ciúme, para ela, está presente porque o amor envolve tempo e interesse. O que é o trânsito que um amante faz na direção de um novo amado que deixa o velho sabendo que sua relação amorosa vai acabar? Ora, simplesmente isso: tempo e atenção. O novo amor ou, melhor dizendo, o novo amado, começa a ganhar mais tempo e atenção que o antigo. Então, é duro não convencer o antigo que o amor é exatamente isso, o gasto de tempo e atenção. É difícil também não deixar o novo amado não saber que, se ele está ganhando tempo e atenção, ele está diante de uma pessoa que já se apaixonou.

Esses dados empíricos, da experiência de cada um de nós, mostram que o ciúme e, senão é um componente essencial do amor, é um componente sempre presente na fenomenologia do amor enquanto o que se inicia ou se acaba. Ele é um termômetro de como anda nossa relação amorosa.

Mas, tudo isso dito, a questão da possibilidade do amor-eros também envolver uma relação de amizade não está resolvida. A solução dada por Neera Badwar é uma costura que ela faz entre uma inversão de Kant, levada a cabo por Scruton, e uma observação bastante pertinente de Nathaniel Branden. É o que segue.

Como sabemos, Kant tem objeções contra o amor romântico ou amor-eros porque, do ponto de vista de seu sistema moral, um ato para ser moral, entre outras coisas, não pode fazer do homem um meio, somente um fim em si mesmo. O sexo seria o uso do outro como meio do meu prazer. O ciúme, sabemos, seria um bom sinal de que queremos mais uma vez o sexo como meio. Ora, Badhwar observa bem que Scruton vira o argumento de Kant contra o próprio Kant, pois pede que observemos o quanto só no prazer do sexo dentro do amor romântico é que alguém se sente considerado como sendo um fim em si próprio.

Tenho de concordar com Scruton. Quando no âmbito do amor romântico nos dedicamos ao sexo, o prazer que obtemos não vem somente do gozo pessoal, digamos, físico, mas do gozo físico potencializado pelo prazer psicológico de fazer o outro gozar. Caso o outro não possa ter o prazer máximo, aliado ao carinho, respeito e segurança, o nosso gozo não se completa. Sentimo-nos em dívida para com o amado quando tudo não ocorre segundo a idéia de que o prazer do outro é fundamental.

Ora, é isso que Neera Badwar liga com a Branden, pois ele lembra bem que essa experiência de amor é o que mais nos faz visíveis a nós mesmos a partir do espelho do outro. E ele argumenta que a visibilidade de cada um a partir do outro, como espelho, é da essência da amizade. Assim, no limite, o amor romântico não envolveria um distanciamento para com a amizade mas, ao contrário, seria sua mais perfeita realização.

©2011 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ
Leiam muito mais em  Filosofia, amores e companhia, da Editora Manole.

Bjosss
Cacau

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